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  • Filmes do Mato

Entrevista com Silas Mendes

Tendo estudado alguns instrumentos, acústica e produção por minha conta na adolescência, acabei tendo meu primeiro contato com o áudio através de programas em que podia escrever e ouvir meus arranjos musicais. Mais tarde decidi fazer a faculdade de Produção Fonográfica e a partir daí meus interesses foram se diversificando, passei a conhecer e me dedicar cada vez mais à parte técnico-criativa. Trabalhei com produção musical, onde buscava ajudar os músicos na sua própria expressão e não em dizer o que é certo ou errado; trabalhei com companhias de teatro, onde a concepção sonora acrescenta camadas à dramaturgia, sem desviar o foco da performance; e o caminho natural foi chegar ao audiovisual, onde é possível ter ainda mais liberdade para experimentar e criar.



No cinema e no audiovisual em geral o áudio ajuda a contar uma história, é parte de um todo. Quando alguém que não é do meio diz que adorou o som de um filme, ou que sua qualidade sonora é impressionante, ou qualquer coisa do tipo, é quase possível se considerar que a equipe de áudio falhou no projeto. O áudio deve fazer parte, não se destacar, deve ser aquilo que é aparentemente imperceptível, mas que se não existisse faria falta. O melhor que se pode dizer sobre o som de um filme é que o filme em si é bom; se a pessoa pensou no som como algo separado, o som a fez sair do contexto do filme e isso, na minha concepção, é um erro.


Se o trabalho de áudio não é bem feito, seja por qual motivo for: falta de tempo, falta de qualidade dos equipamentos, falta de esmero dos profissionais... isso fica evidente no filme e começa a tirar a atenção do espectador do que importa: a história que está sendo contada. O áudio não precisa de complexidade para ser bom, ele precisa estar dentro do contexto, existem filmes maravilhosos de Bergman e Bresson por exemplo, onde o áudio é somente o diálogo dos personagens, e isso é perfeito dentro da proposta do filme; o contrário do que acontece por exemplo com Nolan, onde há uma complexidade tão grande de elementos que às vezes fica difícil distinguir o que é música, o que é som direto, o que é efeito; mas isso não torna um trabalho melhor que o outro, são somente diferentes. Claro que a equipe de som precisa ser muito maior e demanda muito mais tempo (e dinheiro) num filme de Spielberg do que num filme de Varda, mas o que importa é que nos dois é realizado no som o necessário para se contar a história da melhor e mais coerente forma possível, de acordo com suas propostas.


Quando inicio um trabalho, busco entender ainda na pré-produção (lendo o roteiro, conversando com o diretor) a proposta que aquele filme tem e a partir daí um universo de sons começa a surgir em minha mente, quando chega o primeiro corte esse universo cresce (ou se desfaz) e passo a transformá-lo em realidade, seja através da gravação ou da criação e manipulação de sons, ambientes e efeitos, mas sempre mantendo o foco no que é melhor não para mim ou para meus ouvidos, mas para a proposta do filme.


O ideal é que o som de um filme seja planejado desde a pré-produção, o acompanhamento de um sound designer, alguém que pense, coordene e articule o trabalho de áudio, ainda que remotamente, é imprescindível para uma realização de qualidade; se todos os equipamentos, ambientes, vozes de atores e, novamente, a proposta do diretor, forem conhecidos e estudados antes do início do processo de filmagem, a pós-produção (tanto edição quanto mixagem) conseguirá chegar num resultado muito melhor e em menos tempo.



Nós nunca estamos satisfeitos com quem somos (pelo menos eu nunca estou), buscamos sempre nos tornar melhores, e para quem trabalha com áudio é indispensável assistir e ouvir com atenção outros filmes, realizados por outras pessoas, conversar sobre suas técnicas com pessoas do ramo, se atualizar a respeito de softwares e equipamentos, diversificar seus interesses e, principalmente, acredito eu, descansar os ouvidos; muitas vezes passamos tanto tempo trabalhando que os ouvidos já não funcionam mais, tudo parece ruim e você começa a se achar um péssimo profissional e duvidar de toda sua carreira. É importante descansar.


Ainda vejo que o cinema independente (mas não só o independente) do Brasil tem muito a crescer, já demos um bom salto na última década, mas ainda não chegamos lá, infelizmente ainda não temos condição de nos colocar em pé de igualdade com outros cinemas do mundo. É bom deixar claro que digo isso meramente em relação a questões técnicas, principalmente com relação ao acesso a equipamentos e à valorização dos profissionais. Quanto à parte artística e criativa não é preciso nem dizer o quanto o nosso cinema é maravilhoso, basta observar o quanto conseguimos fazer mesmo com o descaso e a falta de incentivo com relação a arte no país.



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