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Entrevista com Luis Bocchino

Atualizado: Jan 16

Minha relação com o audiovisual começou em 2004, quando meu pai e irmão, Beto e Lallo Bocchino fundaram a Produtora Pangéia em Itajaí, Santa Catarina. Lá produzimos algumas dezenas de filmes, em sua maior parte documentários utilizando variados mecanismos de financiamento. Como produtora de vídeo, a Pangéia também atendia o mercado de institucionais, videoclipes e pequenas publicidades. Ali eu tive minha primeira escola, que foi a da cinematografia de rua, sem decupagem, com roteiros bem livres. Mesmo depois que me mudei de lá, continuei trabalhando com eles até 2015 em idas e vindas de ônibus e HDs externos por sedex. Dentre os meus favoritos estão “Pay Tumé”, “Alerta Vermelho” e “Cura pela Fé”.

Lallo, Luana e Luis Bocchino em Cuzco - Peru. Filmagens do documentário Pay Tumé. 2006


Em 2006 morando em Mariana e Ouro Preto, me juntei a um grupo que constituía o Centro de Produção e Pesquisa Audiovisual da Universidade Federal de Ouro Preto. Lá produzimos diversos curtas-metragens de ficção e experimentações em Mini-DV. Talvez as produções mais marcantes nessa época tenham sido “O Sonho de Alice” de Henrique Manara, “Aleijadinho” de Geuder Martins, e “O Cara Passa” de Maria Ribeiro.


Este mesmo grupo, através de uma parceria construída com o Canal FUTURA, lançou a TV UFOP, com uma proposta de produção de conteúdo educativo e de criar uma ponte de extensão do conhecimento universitário com o público. Nessa TV eu iniciei meus estudos sobre pós-produção, motion graphics e colorização, que foram muito importantes para a minha formação enquanto diretor de fotografia. Ocupei o cargo de Diretor de Criação por alguns anos até me mudar para Belo Horizonte.


Filmagens do VT para a Semana de Artes da UFOP. Direção de Luis Bocchino


Ainda em Ouro Preto, fiz parte de um grupo de produção artística e cultural chamado Coletivo Muzinga, que nasceu a partir da rede Fora do Eixo. De lá, parti para BH onde participei da fundação da Casa Minas e foi onde aprendi muito sobre o audiovisual e sobre convivência coletiva. Produzimos de forma intensa vídeos sobre manifestações culturais da cultura independente, cobríamos pautas sociais como ocupações e em 2011 já tínhamos nossa própria programação televisiva pela internet usando as lives, a PósTV. Nas coberturas das manifestações e eventos dos movimentos sociais, nasceu a Mídia NINJA, onde colaboramos para um novo tipo de produção de midiativismo. Cobrir o Grito Rock pelo interior de Minas, conhecer a realidade da cena do rap de BH com o Família de Rua, visitar ocupações como Zilah Spósito foram experiências que vou levar pra vida.


Programação da SEDA JF no anfiteatro João Carriço


Em 2013 parti para Juiz de Fora, ainda com conexão com a Casa Fora do Eixo local, para buscar uma formação acadêmica. Ingressei no Bacharelado Interdisciplinar em Artes e Design e depois me formei em Cinema e Audiovisual. Viver a experiência da produção universitária, com todo o apoio e suporte que o curso da Universidade Federal de Juiz de Fora proporciona foi uma experiência sem igual. Retomei aquilo que eu mais gostava, a fotografia para cinema mas sem abandonar a edição e a pós. Os anos de produção cultural também me trouxeram uma bagagem muito grande para produção e me envolvendo nos sets de amigos e colegas descobri nas produções de ficção a minha verdadeira paixão.


Foi no set do primeiro longa-metragem que participei, “IMO” de Bruna Schelb Corrêa que nasceu a Filmes do Mato. Lá, em um sentimento de que necessitávamos nos organizar para entrar para esse mercado de trabalho tão específico, nos juntamos para podermos produzir nossos filmes e também poder prestar serviços audiovisuais.


No ano passado completei 16 anos trabalhando dentro da área do audiovisual e hoje não me vejo fazendo outra coisa nessa vida.


Sempre que iniciamos a pré-produção de um filme talvez a leitura do roteiro com a cabeça livre de qualquer referência-interferência tem sido o que funciona melhor pra mim. Tirar ideias pré-concebidas ou atmosferas de outros filmes nesse primeiro momento pode abrir portas para um processo criativo mais pessoal. Depois no diálogo com a direção e direção de arte, principalmente, alguns elementos modulares começam a surgir e é aí que inicio o processo de agregar visuais para a ideia que já tenho na cabeça.


Luis Bocchino e Pedro Viana nas filmagens de "A vida é coisa que segue" (2019)


Gosto muito de buscar inspiração em iluminação e composição dentro das artes plásticas e tento sempre nessa etapa fugir de assistir outros filmes para não contaminar o processo. Acho muito bom também o momento das visitas das locações, passando o máximo de tempo nelas e pensando nas fontes de luz, movimentos, recuo, lentes, espaço para equipe, disjuntores.


Após esse momento eu me permito, agora com uma forma mais pronta, deixar entrar inspirações de fotografia e de filmes que pesquiso, ou que são indicados pelos outros setores. Eu sinto que, dessa forma, consigo absorver melhor o roteiro, a locação e a história que iremos contar. Planejar a iluminação para contribuir com a narrativa e o arco dramático do filme que, na minha opinião, precisa ser um movimento coerente, buscando uma autenticidade dentro daquela história. Cada filme vai pedir um tipo de fotografia diferente, tento sempre me impedir de já chegar armado das minhas referências pessoais para tentar "enfiá-las" dentro do filme porque considero esteticamente bacana.


Luis Bocchino e Caio Deziderio nas filmagens do institucional da marca IETA


Eu acredito que dentro da minha trajetória, ter iniciado na pós-produção, passado para a montagem, depois produção, ter dirigido algumas coisas e depois entrar para o setor da fotografia moldaram muito a forma como eu trabalho. Ter feito assistências, principalmente para o meu pai, Beto Bocchino, que foi um professor incrivelmente criativo e sem didática alguma, me fez sempre querer pesquisar sobre os aspectos técnicos da iluminação e da ótica das lentes. Ter feito uma porção de cursos e continuado fazendo sempre esses cursos e workshops também foi fundamental para entender que existem incontáveis jeitos de se montar uma luz e decupar uma cena. E sempre que possível, fazer novamente assistência ou gaffer é um aprendizado gigante, como recentemente fiz para Thaiz Araújo em “Há tempos não vejo minha mãe” e para o genial Caio Deziderio em “Cinesia”.


As produções da Filmes do Mato, que este ano chegam a marca de vinte em três anos, contando apenas as autorais, são todas feitas com muito carinho, e pra mim é uma alegria ter feito parte delas. É difícil elencar favoritos, todos foram exercícios importantíssimos além de obras artísticas únicas e originais. Um dos sete curtas que produzimos até agora na quarentena, por exemplo, o “Temos Muito Tempo para Envelhecer” tem um lugar especial no meu coração, por termos achado uma história que possibilitou muita experimentação técnica, com a utilização de sequência de fotos - técnica que pesquiso há alguns anos.


Set de filmagem do curta-metragem "Temos muito tempo para envelhecer" (2020)


Eu vejo na cena audiovisual de Juiz de Fora uma potência latente. Enxergo que existem ótimas pessoas na área, e prova disso a gente vê anualmente na Mostra Regional do Festival Primeiro Plano. Eu creio que para tornar esse desagrupado de profissionais, produtoras e grupos em uma cena, ou até num arranjo produtivo, é necessário muito diálogo entre os elementos.


Muita gente está aqui há um bom tempo, estabelecendo sua produção com qualidade, seja dentro da prestação de serviços audiovisuais, seja na produção autoral. Dentro de uma cidade que possui uma universidade federal com curso na área, uma fundação de cultura com fomento de certa forma regular, e uma série de pessoas jurídicas instaladas na cidade, o que nos falta mesmo é ter a capacidade de enxergar uns aos outros como pares, não como concorrentes. Como trabalhadores de um mesmo setor técnico-artístico acredito que com uma certa organização somos capazes de tornar a produção na região mais sustentável. Seja com a criação de uma ponte de diálogo com o setor industrial para recolhimento de ICMS para nossas produções aprovadas por lei estadual, seja para regular e adequar as tabelas sindicais de piso salarial para a realidade regional.


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