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  • Filmes do Mato

Entrevista com Mia Mozart

Atualizado: Jul 20


Mia Mozart no set de "Baixas Lendas da Classe-Média Alta: Janaína-Sem-Cabeça".

Foto de Felipe Monteiro


Eu aprendi bem cedo que no cenário nacional de audiovisual é difícil ter apenas uma função, hoje em dia eu sou roteirista, diretora, atriz, preparadora de elenco e produtora. Me interessei bem cedo pela área, mas foi aos dezesseis anos que comecei a praticar a escrita e com isso minha trajetória teve começo. Nesse caminho dirigi cinco curtas e tenho outros projetos em desenvolvimento.

Tive a sorte e o prazer de fazer parte de produções de outras pessoas, o que me fez repensar a minha forma de trabalhar e de entender esse trabalho. E pude ter alguns vislumbres das articulações da indústria internacional cinegráfica, o que me fez ter os dois pés bem fincados no chão e a cabeça nas nuvens em relação ao meu trabalho.


A minha preparação como atriz se dá antes do texto, eu gosto de conversar com o roteirista sobre o mundo que estamos retratando. É fundamental saber “que mundo é esse”. O tom dessa conversa pode definir os próximos passos. O roteiro, por mais importante que seja, não é a única forma de pesquisa e criação de personagem. Ele dá o chão, a base dessa construção, as paredes eu posso fazer com músicas, figurinos (calçados são fundamentais para a criação, ele pode ajudar na construção de um corpo real), peças de teatro, etc...


Depois de um tempo juntando várias pecinhas soltas, eu tendo a sossegar e esperar que os encaixes venham. Que as peças se acomodem e formem algo que vive, nem que seja apenas para a tela, mas que isso dê algum corpo para a personagem do roteiro.

Fotograma de "Baixas Lendas da Classe-Média Alta: Janaína-Sem-Cabeça".

Direção de Bruna Schelb Corrêa. Direção de Fotografia de Luis Bocchino, ABC


Gosto de pensar dessa forma não só quando crio para mim, mas também quando faço isso para outros. Tanta na criação que faço para personagens que escrevo, quanto para atores que preparo.


Quando eu preciso criar algum parâmetro de qualidade para o meu trabalho, eu sempre penso se essa personagem é tão real quanto minha mãe. Se ela consegue ser tão contraditória, tão irritante e amável. Se ela tem dimensões. As camadas fazem desse pedaço de papel algo que é digno de importância, de doação de tempo. Personagens reais acabam sendo minhas maiores referências.


Eu tenho que dar graças que nesse “momento” de pandemia eu ainda tenho espaço para criar, para continuar me movimentando e trabalhando. No momento eu me debruço em um projeto novo de curta-metragem, em um canal no Youtube (Boo e Outras Coisas), em outros roteiros, curtinhas despretensiosos. Fico usando minha casa como um espaço de criação mutável e cheio de limitações. Sem romantizar... tem sido produtivo.


Juiz de Fora é um local atípico, mesmo com uma certa escassez de recursos, com um mercado frio para o audiovisual e para outras artes, as pessoas continuam fazendo seus filmes, suas expressões artísticas continuam a ser apresentadas em vários formatos.

Não sei explicar como isso se deu, mas eu tenho um orgulho imenso desse ímpeto em fazer que essa cidade tem.

"Baixas Lendas da Classe-Média Alta: Janaína-Sem-Cabeça".

Foto de Leonardo Morais. Design do pôster de Luis Bocchino


Em 2019 eu trabalhei com a Filmes do Mato e foi uma experiência tão doce, eu guardo com muito carinho no coração. Primeiramente, porque eu gosto de organização no trabalho e era um alívio ver que tudo estava programado e dentro de um cronograma. Segundo, porque a Bruna é de uma gentileza enorme na direção, e poder conversar com seu diretor de forma clara e aberta é fundamental.

Toda a equipe envolvida no filme foi escolhida com muito carinho e isso ficava muito claro ao decorrer das gravações. Janaína Sem Cabeça é um projeto formado por pessoas de um talento enorme e eu tenho um carinho enorme por ele.


Enquanto formos governados pelo desprezo a arte e a liberdade de expressão, não só o cinema independente, mas todas as expressões artísticas estarão em maus lençóis. Mas é evidente que o cinema que já não tinha grande apoio fica cada vez mais desprotegido quando questões tão grandes são colocadas à mesa.


O cinema no Brasil já sofria com o papel de desimportância que lhe foi dado não só por outros governos, mas também pela própria população. O cinema independente acabava não tendo espaço e morrendo nas primeiras exibições, a falta de expectativa de crescimento nessa área aqui no Brasil sempre foi assustadora.


Agora, em meio a uma pandemia que dificulta nosso trabalho em outros meios, como na publicidade. O cenário se deteriora não só para a realização dos filmes em si, mas também na forma como as pessoas que dependem desses filmes e de todo cenário audiovisual para se manter.


Lógico que há uma luz para alguns, sei que pode ser um momento para criação de roteiros, preparação de projetos... Apenas não vejo todo esse cenário caótico com tanto otimismo, mas é possível ver alternativas de criação e formas de se reinventar.

Filmes do Mato, 2020. Cataguases/Juiz de Fora - MG, BR - contato@filmesdomato.com.br