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Entrevista com Luiza de Amorim

Sou estudante do curso de Cinema da UFJF e a maior parte das minhas experiências com a realização de vídeos e curtas vêm de projetos realizados para disciplinas ou projetos entre amigos universitários. Já pude trabalhar na direção de arte de um curta, o Amélia em Transe, produção, um pouco de montagem (área que pretendo estudar e praticar mais) mas a maior parte dos projetos que participei foi captando som direto. Meu interesse nesse momento é estudar e praticar a edição e o tratamento do som.


Luiza de Amorim no set de "Baixas Lendas da Classe-Média Alta: Janaína-Sem-Cabeça".

Foto de Leonardo Morais


Além das experiências práticas, também me interesso pela pesquisa e pelas atividades de cineclubes. Faço parte de um projeto, o Minas é Cinema, sobre a atividade cinematográfica em Minas Gerais, reunindo dados principalmente dos cinemas de rua. Para meu trabalho de conclusão de curso, estou pesquisando os cinemas de rua que existiram/existem na minha cidade, Volta Redonda. 


Ao ler um roteiro, é possível ter uma boa noção da paisagem sonora ao identificar o espaço em que os personagens estão inseridos e as características que ele nos dá desses espaços, afinal, roteiros costumam trazer as informações que o autor considera importantes para o entendimento da história. Se é um ambiente interno ou externo, se é um lugar ao ar livre com árvores e pássaros ou uma cidade, um restaurante com outras pessoas ao redor, dia ou noite… Em conjunto, é importante analisar também como o personagem está se sentindo ou em que situação ele está, se as falas serão enérgicas e altas ou um sussurro. 


Equipe no set de "Baixas Lendas da Classe-Média Alta: Janaína-Sem-Cabeça".

Foto de Leonardo Morais


Essa primeira análise do roteiro é muito importante ao se preparar para fazer a captação de som direto, além dos demais materiais que a produção disponibilizar para a equipe. Você irá ver se o roteiro possui diálogos, se é uma entrevista, se terão duas ou mais pessoas falando ao mesmo tempo e em qual posição elas estarão, se as cenas são internas ou externas e quais tipos de ruídos podem ocorrer nos locais em que será a filmagem, se é um problema para a direção estes ou se eles podem ser utilizados na ambientação (desde que fiquem boas e compreensíveis as falas e não fiquem desconexos). 


Com esses dados, irei separar e preparar os materiais de som (e que temos disponíveis para utilizar), um boletim de som para organizar o que foi captado e é interessante quando você pode realizar isso em conjunto com mais uma pessoa. O que passar despercebido por um pode ser notado pelo outro e as trocas engrandecem e facilitam o trabalho.


Luiza de Amorim no set de "Baixas Lendas da Classe-Média Alta: Janaína-Sem-Cabeça".

Foto de Leonardo Morais


Para que o áudio de um vídeo fique bom, acredito que o principal é pensar ele de maneira criativa, e não apenas como um complemento da imagem que você irá pensar de última hora. Se planejar e dar o tempo no set para que a equipe de som possa se posicionar corretamente e prever possíveis dificuldades que possam haver no local, para que a equipe já planeje possíveis soluções. Tudo isso de acordo com o que foi idealizado na pré-produção e as condições do projeto. 


Em Juiz de Fora observo uma cena audiovisual muito maior do que a da cidade onde nasci, Volta Redonda, por exemplo. Além do curso de cinema, comunicação e outros, com várias pessoas interessadas em produzir curtas, documentários e diversas outras linguagens da comunicação, a existência de produtoras (como a Filmes do Mato, Impulso, Vagalume e outras), temos também um edital de incentivo da própria cidade (Murilo Mendes) e um festival de cinema, o Primeiro Plano, ações que certamente divulgam e incentivam a produção de cinema na cidade. Acredito que nesse cenário de pandemia e pós-pandemia será preciso pensar e colocar em práticas maneiras de aprimorar ainda mais o incentivo à produção e maneiras de divulgar e aproximar o público dessas produções, partindo não apenas dos produtores e cineastas, mas também do poder público. É importante que a cena seja vista por um público mais amplo, até mesmo para facilitar os acordos de patrocínio dos filmes com as empresas da cidade.


O cinema independente brasileiro é a maneira que existe de muitas narrativas importantes que não recebem investimento (não há cinema sem dinheiro) serem contadas. Nunca foi fácil, mas é um setor que cresce, se desenvolve e precisa de atenção e investimento, não apenas em questão de produção, mas também em distribuição e exibição. É difícil olhar para as posições do governo atual em relação à cultura, nesse caso ao cinema, e imaginar avanços e políticas públicas que deem a ele sua devida importância. Isso somado às consequências e desafios que a pandemia do coronavírus estão deixando e os rastros que ainda perdurarão por algum tempo. Como fazer filmes sem reunir pessoas, sem que elas tenham contato? Como exibir os filmes de maneira popular? Acredito que esse será um momento difícil, porém não impossível, e teremos que ser criativos e demonstrar posição e resistência de maneira estratégica.

Filmes do Mato, 2020. Cataguases/Juiz de Fora - MG, BR - contato@filmesdomato.com.br