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  • Filmes do Mato

Entrevista com Leandro Silveira

Comecei ilustrando para uma produtora em Belo Horizonte. Rapidamente migrei para a animação. Que é a menina dos meus olhos até hoje. Nesta produtora participei de projetos como cartilhas animadas, visitas virtuais à museus e fiz campanhas políticas (é triste, eu sei). Minha maior função era animador 2D.


Com o fim dos projetos voltei para Cataguases e conheci o pessoal da Fábrica do Futuro e do POLO Audiovisual. Me encantei. Participei de um curta-metragem de animação, já em produção quando eu cheguei, em seguida, um amigo me indicou para uma entrevista. Tinha um filme precisando de assistente de arte. Entrei no filme e de lá pra cá sigo na batalha de projeto em projeto tentando sempre contribuir mais e mais.


Bastidores do filme "A vida é coisa que segue" (2019). Foto de Felipe Monteiro


Para mim, a direção de arte começa na pesquisa. Uma pesquisa com a Direção, para entender o tema, para ver as referências da história, onde ela se passa e quando ela se passa. Depois, uma pesquisa sobre o que resultou da pesquisa com a Direção, aí é internet, outros filmes, livros, de onde você achar informação. Esta segunda pesquisa é para encontrar um corpo, uma realidade, as regras, as cores, as construções, itens pessoais etc. Com isso estabelecido, começam as concepções, as propostas. É hora de pegar a pesquisa e montar a estética visual do filme.


Nas experiências que tive como diretor de arte, fiz pequenas apresentações com desenhos e fotos de referência das propostas, mas conheço diretores de arte talentosíssimos que não gostam de desenhar as propostas. O Processo é único. Cada um tem o seu. Com a “Bíblia” da Arte pronta, apresento as ideias para a Direção e recomeçamos o processo.


Para encontrar o que cada personagem e ambientes precisam, fazemos uma decupagem do roteiro, onde anotamos e separamos todos os pontos necessários para contar a história. Algumas produções oferecem essa decupagem, a chamada AT (Análise Técnica), mas é comum a equipe de arte fazer a dela, mesmo recebendo a AT da equipe de Direção. É um ótimo exercício para conhecer melhor o roteiro, já que você precisa ler e reler cena por cena para não correr o risco de perder alguma coisa. Fora a Análise Técnica, existe a decupagem da direção de arte, que se resume em toda a cenografia que não é mencionada no roteiro. Essa decupagem vem da pesquisa do tema e da época, dos ideais e crenças dos personagens, do que eles consomem, da informação que chega até eles.


A Direção e a Direção de Arte conversam muito. É uma troca constante. A Arte também conta a história.


Nas ocasiões que liderei equipe, busquei concluir todas as etapas que dependiam exclusivamente de mim antes de escolher o time. São as pesquisas, os desenhos, as trocas com a Direção, os momentos iniciais que comentei anteriormente. Com isso, no momento de fechar a equipe, eu já tinha uma ideia bastante clara do que seriam os ambientes, do que nós teríamos que produzir e o que nós teríamos de buscar. Dessa forma, posso escolher, dentre os profissionais que já trabalhei, os que se encaixam melhor nas necessidades da Arte para a produção em questão. Com a equipe fechada, apresento as propostas definidas e iniciamos a pré-produção.


Eu, particularmente, prefiro manter uma certa distância do pessoal da fotografia. Os brinquedos deles são muito caros, e eles gostam demais daquelas lentes (rsrs). Brincadeiras à parte, tem verdade nisso, fique longe da câmera.


Nas minhas experiências de set, como assistente de arte ou contrarregra, a função é auxiliar nas demandas que surgirem durante as filmagens. Mas, nesta etapa, a proposta estética da produção já está estabelecida muito antes de eu entrar no filme e meu contato com a equipe de fotografia é mínimo. Nas vezes que assinei a arte, a Fotografia e a Direção já estavam afinadas e juntas me trouxeram o tema e as referências para a produção. O que foi lindo! Existe um eixo que liga a Arte e Fotografia, a Direção. Que, honrando o nome que tem, aponta a direção por onde todos os departamentos devem ir para chegarmos num mesmo produto. A troca tem que existir, não só entre Arte e Fotografia, mas entre todos os departamentos.


A Arte engloba, situa, ela aproxima e distancia. Os ambientes, as roupas, os itens, toda a cenografia fazem parte da história. Nós somos o reflexo da realidade em que vivemos e tentamos refletir essa imagem na própria realidade. Essa é a contribuição da direção de arte: é realçar características, é aprofundar temas, é montar o universo do filme além do que mostra o roteiro.


Bastidores do filme "A vida é coisa que segue" (2019). Foto de Felipe Monteiro


Trabalhar com a Filmes do Mato foi lindo! S2 Tive muita liberdade de trabalho. A produção foi super aberta a ideias. A Bruna, como diretora, tinha uma visão clara do filme. O Luis, fotógrafo, sempre aberto a trocas e sugestões. O filme “A vida é Coisa que Segue” resume bem tudo o que eu disse aqui. Passamos por todas as etapas de pesquisa, de troca, de problemáticas, de soluções. Caiu cena (o que leva a Bruna Schelb a me dever um filme que tenha um balcão!), voltou cena, mudou o nome, teve de tudo!


Quero mandar um beijão e um grande abraço aos meus queridos amigos e parceiros de empreitada, a sempre elegante e rainha da produção organizada Margareth Netto Amorim e o multiartista Gabriel Nunes Tupinambás, que me ajudaram, e muito, nesse projeto.


O Cinema Independente é guerrilha. Para fazer tem que ter vontade e coragem. É o preço da independência, de poder fazer o que quer... eu acho... Estamos vivendo num tempo onde nunca foi tão fácil filmar e compartilhar, já é do dia-a-dia. Nunca se produziu tanto! Infelizmente, o nosso atual desgoverno não gosta muito disso. Falou “cinema” eles já querem queimar o herege, cinema independente então... Tirou o cabresto, não serve mais para eles. Penso que é hora de fazer, de falar, de ir contra! São tempos sombrios para os criativos independentes, não só no cinema. Estão nos deixando sem opção. Então vamos criar mais! Vamos pôr as ideias pra fora. Vai ser difícil, mais fácil nunca foi. Tem que ter vontade. Tem que ter coragem.


E se você acha que sua ideia não é boa o suficiente, lembre-se que em algum momento da vida alguém falou numa reunião: “Vamos fazer um filme sobre um tornado cheio de tubarões!”.

Em 2018 saiu o sexto filme da série filmes Sharknado.


Bora filmar! E se precisar de arte, liga nois!

Filmes do Mato, 2020. Cataguases/Juiz de Fora - MG, BR - contato@filmesdomato.com.br